segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Breve retrospectiva 3

Este não foi um ano fácil. No balanço geral tive mais perdas do que ganhos. Começou com a grande dificuldade em conseguir alguém para cuidar do meu filho, enquanto sua trabalha. Primeiro, sob sugestão de uma vizinha evangélica, uma jovem que morava numa comunidade próximo da casa em que morávamos – ainda na várzea. Ouvi elogios de todos os lados, a própria se apresentou como evangélica e fez uma única ressalva para trabalhar lá em casa: “todos os dias às três horas da tarde tenho que sair pra igreja”. Confesso que fiquei, nessa hora, com receio. Todos os dias na mesma hora? Será que não poderia ser a noite ou apenas um dia por semana. Cheguei ainda a propor. No primeiro dia a jovem, de olhos azuis e cabelos cacheados, com a voz doce como se fosse um anjo disse que ia pensar e no outro dia nos daria a resposta. Conforme o combinado apareceu no dia marcado pra nos dar a resposta. Duas horas depois do combinado, com mini-saia e uma blusa que lhe pulha exposto os seios ela bate no portão. “eu aceito mas, (prestem atenção no 'mas') algumas vezes vou ter que ir a igreja”. Desta vez não foi eu quem respondeu. Quem falou foi a vizinha evangélica, que assegurou sua idoneidade, sua experiência com o cuidado de crianças e, acima de tudo, sua pureza enquanto alguém que se apresentou como evangélica. No primeiro dia de trabalho, três horas de atraso. Minha esposa, por consequência, também chegou atrasada. No segundo, na hora. No terceiro não deu as caras. E assim ia-se alternando. Paralelo a isso percebíamos um aumento do sono do nosso filho. Em algumas noites febres. Levamos ao médico duas vezes mas, nada diagnosticado. Depois de três semanas, conferindo os remédios percebi que os remédios como paracetamol e outros analgésicos estavam quase no seu fim. Como seria isto possível se não usávamos? Perguntamos a gentil babá se estaria usando estes remédios. Primeiro ela disse que não. Em outro momento disse que sim. Conselhos a parte, da parte de minha esposa – que ainda acreditava se tratar de uma boa pessoa a cuida de seu filho – fiquei em silêncio. O grande hiato estava no período da tarde, justamente na hora em que saia pra trabalhar. Segundo ponto eram as perguntas constantes da vizinha evangélica se estaria tudo bem na condução do trabalho. Pensei: “se esta senhora, gentilmente, se propôs conseguir alguém que trabalhasse como babá, se ela mesmo a apresentou e garantiu a qualidade dos seus serviços, por que, então, tamanha preocupação em saber se estava tudo bem?” É justamente nestes momentos que acredito em Deus e na sua Divina Providência. Terça-feira. Demorei mais do que o habitual para sair de casa. Quatorze horas e trinta minutos. A doce babá, com voz angelical e carinha de anjo parecia inquieta. Nosso filho chorou varias vezes. Ela a segurou. Balançou com certa impaciência. Chegou a afirma que ele estaria com fome. Fingia que não via nada. Ela olhou duas vezes para o relógio. Por que olhar pro relógio? Fui até o quarto de trabalho, liguei o computador e dei um tempo. Quinze horas e vinte minutos. Voltei pra sala. Calçava os sapatos quando a via passar com olhar sombrio. Suas feições estavam fechadas e demonstrava impaciência. Percebi que este era o momento crítico. Alguma coisa está muito errada. Poderia ficar e, nada aconteceria. Fiz o que se esperava. Sai para o trabalho. Já na calçada pensei qual seria a estratégia. Voltar depois de trinta minutos? Se se ela ainda, estivesse em casa? Tinha certeza que algo estava errado e que daquele olhar sombrio alguma coisa estaria por acontecer. Liguei para minha esposa: “G, vem pra casa que esta babá vai aprontar. Estou sentido isso e percebi pelo seu olhar”. G também estava desconfiada. Nosso filho vinha tomando remédios sem que soubéssemos. Outra coisa: não tinha feito um pedido. Foi uma ordem. Tomei o ônibus normal, ainda na estação voltei a ligar para G pedindo que não ligasse para a babá. Antes que chegasse no trabalho minhas suspeitas se confirmaram. G tinha chegado em casa e encontrado todas as janelas abertas, como se tivesse alguém em casa mas, não tinha ninguém em casa. A babá, de extrema confiança conforme apresentada pela vizinha que fazia questão de se dizer evangélica e de conseguir igualmente alguém igual a ela, não estava em casa. G ligou pra ela. Ela atendeu: “Oi está tudo bem com seu filho” disse a babá “Você está aonde?” Perguntou G “Em casa” respondeu a babá “Então abre o portão pra mim que estou a um tempão de frente de casa lhe chamando” Neste momento, a babá desligou o telefone. G ligou pra mim já desesperada. Minha orientação foram duas. Ir até a vizinha e lhe dizer: “se acontecer alguma coisa com nosso filho você será igualmente responsabilizada”. A questão que G colocou naquele momento, só reforçava o ar de cumplicidade com a falta de caráter da babá. G disse: “As portas estão fechadas, as janelas, também” “Bata na porta, chame. Se a vizinha não estiver dê o recado pra quem estiver e, depois chame a polícia” disse. G bateu na porta. Quem atendeu foi a filha da vizinha com cara de poucas amigas, segundo informou G, que não deixou de dar o recardo e, antes que terminasse a vizinha apareceu para recebe-la. Tinha percebido que não estávamos para brincadeira. G ainda ainda cogitou: “vou chamar a polícia”. Tinha retornado a ligação. G já estava com a vizinha. Pedi que deixasse o telefone no via voz, queria que esta maldita mulher percebesse um pouco de minha fúria: “Se este menino não aparecer em uma hora vou chamar a polícia e notificar o sumiço na imprensa”. Baixinho conseguia ouvir: “diz a ele que vamos atrás, vamos atrás”. As suspeitas, que se confirmaram pela própria babá. É que estive em algumas das favelas do entorno do bairro. Tentaram várias vezes ligação para o celular mas, agora encontrava-se desligado. Foram até a citada igreja tantas vezes reivindicada como uma obrigação espiritual mas lá não poderia ter passado porque não havia cultos no período da tarde. Já se dirigiam para um das favelas quando G e a vizinha avistam a babá trazendo nosso filho no colo. A criança sem nenhuma roupa, exposto ao sol das dezessete horas. G correu e agarrou nosso filho. Tomada por um sentimento de ódio pediu que as duas amigas ficassem longe e que sequer entrassem dentro de casa. Algo que foi obedecido pelas duas. Ao cair da noite, antes de entrar para primeira aula já estava sossegado e, bastante grato a Deus por este “surto” de desconfiança. Segundo G, nosso filho chorava, devido a insolação. Uma criança de três meses de imunidade baixa, que ainda inspirava cuidados solto em qualquer lugar, no meio de pessoas que nunca soubemos ao certo de quem se tratava. Conhecíamos apenas a vizinha e a babá. Quando cheguei em casa peguei o menino. Na hora enxerguei dois hematomas no braço. Um deles parecia indicar beliscão e outro um aperto forte. O pior já tinha passado. Livres que uma pessoa extremamente, em nossa concepção, perversa. Na manhã seguinte pagaríamos os dias trabalhado no mês, apesar de ter tido a vontade de levar o caso a frente com processos às duas pessoas: a babá e a vizinha. Logo cedo a jovem chegou com a cara habitual, como se nada tivesse acontecido. Queria dar explicações. Antes que pronunciasse uma quarta palavra entreguei-lhe o dinheiro e disse: caia fora daqui, antes que as coisas piorem pra você”. A desgraçada pegou o dinheiro e saiu. Faltava, ainda, uma pessoa: a vizinha. Nossa decisão seria deixa-la de lado, não procura-la. A implicação dela na busca, a certeza que de a responsabilizaria caso algo pior acontecesse foi o suficiente. Já não poderia sustentar, pelo menos para nós, a bondade cristã convertida. Ainda teríamos um pequeno fato, que serviu para nos livrarmos e deixar ainda mais evidente até que ponto nós, que nos dizemos cristão e pessoas de bem podemos chegar. De tarde, mais ou menos na mesma hora que sai de casa no dia anterior, a vizinha bate em nossa porta. Ela sabia que G estava em casa, porque não tínhamos mais a babá, acho que não contava com a minha presença. “É a vizinha” disse G surpresa. “Veja o que ela quer” G foi até o portão. Observava escondido. “Tudo bem? Desculpa. A gente arruma uma pessoa pensando que a pessoa é honesta e termina quebrando a cara. Teu marido deve ter ficado muito bravo. Ela já vinha saindo há vários dias, assim que ele saía pra trabalhar. Ia falar com ele mas, não tive oportunidade e não queria falar na frente dela” Depois disso resolvi aparecer e dizer: “e se algo mais sério tivesse acontecido?” Claro! Não havia o que responder. Ela pediu pra entrar, dizendo que pretendia conversar. G já estava com a chave. Abriu o portão. Entramos. A vizinha sentou no sofá, G numa cadeira de plástico, sentei na cadeira de balanço. Limitei a ficar calado, torcendo que àquela desgraçada tomasse seu caminho. Não demorou, no entanto, na hora de abrir os portões G não entrava suas chaves. A principio não fui buscar as minhas, sempre que uma coisa dessas sai de nossa visão é preciso certificar-se onde se encontra. Depois de vinte minutos de busca só havia uma alternativa: as minhas chaves. Abri os portões. Depois que ela saiu, continuamos procurando, afinal não se pode perder as chaves de casa. Reviramos tudo, tudo. Procuramos do lado de fora, também, poderia ter ficado lá. Nada! No dia seguinte, continuamos as buscas. Fizemos um exercício relembrando os passos que G poderia ter dado com estas chaves. Nas minha suspeitas, poderia ter ficado do lado de fora e alguém viu e as levou. G jurava e mostrava convicções que tinha entrado em casa. Recapitulando, recapitulando chegamos a conclusão que estaria no lugar que costuma jogar as chaves quando chega em casa: em cima do sofá, no mesmo sofá, que no dia anterior sentou a vizinha. Achei uma suspeita um pouco pesada, porém, depois da babá e de todas as outras omissões melhor não arriscar. Sai até uma casa de ferragens e troquei todas as chaves. Feito isso ficamos tranquilos. Durante dias não víamos a vizinha. Algumas vezes que bota a cabeça do pro lado de fora, fazia questão de encara-la. Parecia desconfiada. Havia razões pra está desconfiada. Mesmo durante o processo de mudança da casa não encontramos as chaves. Depois de tudo que tinha acontecido não conseguimos nos livrar da possibilidade desta chave ter parado em outro bolso. Quem? Isso não tem a menor importância. O fato é que todas essas coisas da vida cotidiana (algumas até pequenas) nos aborrecem, atrapalham. Me pergunto qual a razão de alguém prejudicar outra, ou simplesmente, por não sermos tão iguais como se espera (principalmente nestes bairros pobres) em tratar de lhe passar o que pior tem de si. Falsidades, falta de compromisso com o espaço público. Atitudes dissimuladas. Nos mudamos, porém, algumas coisas até piores encontramos neste novo local que temos pra morar. Enfim, não foi um ano fácil e, o quanto é difícil entrarmos alguém sincera e honesta, quando se trata de convívio. Há quem diga que esta é a sina de uma humanidade corrompida pela ganância e pobreza política e espiritual que vivemos no momento.

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