quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Morada do ser.

Perdoem os erros no português. A linguagem é a morada do ser, já falava o filósofo Heidegger. Na linguagem construímos nosso sistema de valores, crenças e objetivos. Pela linguagem, re significamos nossa realidade, a partir disto traçamos nossos ideais (que não pode ser confundido com objetivos). Por isso, não é atoa que falamos da importância da leitura em nossa formação. Sua importância, neste caso, está relacionada ao universo de representações sociais. Dado este fato, podemos nos questionar: quantas pessoas oriundas das camadas pobres da sociedade tem o hábito da leitura? (retiro da prática da leitura os livros didáticos, mas se isto acontece do males o menor, pelo menos estão se informando pra alguma coisa). Como se dá pela linguagem o mundo de representações dessas camadas. Visualizo algumas características. As músicas que se costuma ouvir nas periferias tendem a ter no seu cotidiano “imagens” e/ou mensagens que dizem respeito ao cotidiano. De palavras simples, as vezes com palavrões ou jargões vulgares, a exemplo de músicas que falam de “novinha” ou “cachorra etc e tal” marcam não apenas uma situação de classe social, até porque tem pessoas de classes sociais mais abastardas que costumam, também, compartilhar dessas músicas, mas, de linguagem que na prática é a representação de uma situação social e cultural, com seus valores, padrões, quase sempre que não agregam à coletividade. Do outro lado, as pessoas que de alguma forma buscam na leitura um meio de manter-se informado e, principalmente, como estilo de vida percebe-se outros padrões de conduta e de comportamento. Como isto ainda é mais comum em classes sociais longe das periferias (infelizmente – deveria ser uma prática comum a todos) a visão, o sistema de valores, as opções de música, de estética, a maneira como se propõe a resolução de problemas é diferente. Alguns podem ver isso ao frequentar uma livraria. Entrem numa livraria e observem o que as pessoas buscam. Não é o livro, enquanto objeto físico mas o que presenta, o que posso tirar dessa experiência prazerosa que é a leitura. As pessoas que numa situação social desprivilegiada, do ponto de vista econômico, tem o livro como companheiro se destacam dos demais. Pelas atitudes, pelos gostos musicais e estéticos, ou seja, a tendência é que evitem essas músicas de duplo sentido de denigrem a imagem das pessoas. Entra ai um novo sistema de valores, aqui volto a frase de Heidegger: a morada do ser é outra, mais valorativa de gestos mais bonitos. Coisas simples como “bom dia” “com licença” “obrigado”, coisas simples que fazem parte da sua vida. Como professor tenho percebido que o diferencial do aluno bom, que estuda, questiona e corre atrás de um conhecimento está diretamente relacionado com a prática da leitura. Quando estou falando de leitura, neste caso, não é apenas os didáticos ou recomendados pra se passar na disciplina. Este grupo costuma ter uma leitura diferenciada, isso ajuda na resolução de problemas, sobre tudo quando disciplinas de humanas. Quando lemos Jorge Amado, por exemplo, não estamos apenas vendo istórias do sul da Bahia com seus personagens. Estamos entrando num universo de representação que poderia ser impossível a grande maioria ter esse conhecimento. Estas informações, também, se tornam referências pro nosso mundo. Quando imaginamos que a realidade pode ser criada ou recriada por minha mente. Recentemente li JAZZ, autoria de Toni Morrison, a novidade da história foi o universo dos negros norte americanos. Histórias de sofrimento e exclusão, relacionado com amores e desamores. Percebi com este livro que estes tipos criados nos personagem podem estar presentes de nossa vida, na medida que nosso sofrimento cai no rotina e pra sair da rotina não damos conta de quem está do nosso lado. Bom! E quando lemos Dostoiévski, a ideia de bem e mal que se misturam? O quanto é poderosa é sua leitura. Eu diria que uma das características da feiura não é estética mas, na burrice estampada em homens e mulheres que abrem a boca pra falar coisas vazias, a linguagem que usam mostram o seu ser. O que dizer de mocinhas bonitas sem nenhum conteúdo, acreditam que o exterior lhe será suficiente pra vida. E o que pensar de velhas senhoras que se cristalizam apenas no que julgam certo a partir de valores, muitas vezes passados pelo líder político ou religioso. Conheci uma velha que ficava irritava quando as atividades estavam voltadas à reflexão e a leitura. Além das palavras rudes que sempre usava comigo, tentando me diminuir ou mostrar a turma que não sabia do que estava falando, percebia gestos vulgares ou mesmo querendo valer-se de uma autoridade que não é cabível em sala de aula. Li recentemente numa revista de sociologia tratando sobre a importância da leitura. Marcelo Alves, o autor, cita Pierre Bourdieu ao afirmar que toda prática humana está inserida numa ordem social. A partir disto, cita a educação como um elemento de que instrumentaliza e legitima os processos de desigualdades sociais. Fazendo uma relação com a leitura, o número de leitores no Brasil em 2007 estava em torno de 95,6 milhões, em 2011 esse número caiu para 88,2 milhões. Esta pesquisa foi realizada pelo instituto pró-livro. Estes dados podem nos apontar uma serie de fatores, no entanto, o que fica mais evidente que nossas possibilidades de mudança, de sermos um país bom de se viver ficam diminuídas, porque não afirmar mais pobres. Vivemos um período de certa estabilidade política e econômica, no entanto, esquecemos outros valores importantes na construção da cultura. A valorização do diploma e os bancos das faculdades cheios nos últimos anos, também, não tem significado melhorias nessas áreas, o que é muito preocupante. Que tipo de profissionais está saindo das instituições de ensino? Como estes profissionais se enriquecem de conhecimento pra serem melhores no mundo do trabalho e social? Se pensam que leitura de slides e pequenos textos preparam, vamos assistir daqui alguns anos uma população de diplomados que não sabem interpretar um texto. Olhe que já tem pesquisas indicando isso. Estou trazendo todos esses argumentos pra mostrar que precisamos construir esta morada do ser, no enriquecer com a linguagem. Sentimos a necessidade de sermos melhores. Enquanto se fala que a classe Z agora é S, será que realmente aconteceu esta mudança? Será que foram capazes, por meio de sua cultura e de sua história fazerem uma leitura de si e mudarem? São perguntas que não sei responder. Na minha fraca percepção da realidade o que vejo são consumistas que compram tudo, menos livros. Pessoas que se dizem universitários e querem diploma, mas a relação que se estabelece com este conhecimento está muito mais voltado pra um modelo de quem compra do que alguém que adquiri, aliás na leitura adquirimos e assimilamos. São questões a serem pensadas. Claro! Sempre na companhia de bons livros!

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